O deus e a fantasma (cap.1)

Estufa o peito, admira-se diante do enorme espelho em seu magnífico escritório, a sala do trono onde seu ego se autocoroa diariamente. Gosta da imagem refletida. Aproxima-se dos setenta anos, contudo, não parece. Seus médicos lhe dizem que seus exames equivalem ao de um indivíduo com duas década a menos, o mesmo lhe assegura o seu personal. E o principal, é assim que se sente. Um deus maduro, como tantos retratados na antiguidade e na renascença. Não é jovem demais para ser vitalidade em demasia somada a baixa destreza e nem senil a ponto de se valer apenas pela experiência, pois a vitalidade pereceu antes da vida. Superou os verdes anos e não conhece a decadência.  Enfim, o equilíbrio perfeito entre o poder e a sabedoria.

Contudo, não se proclama Zeus, o maior de todos, mas o filho, Apolo. Não há incoerência alguma nisso. Tem ciência de que é, assim como seus pares, filho de um ente maior. Ente este que foi o responsável por destronar as limitações do tempo e as demais, não há como não reconhecer sua superioridade e não ser grato a ele. Aliás, é o único ente ao qual nosso Apolo se curva. E sobre a objeção de o deus portador do sol ser jovem, ela é simplesmente improcedente. Apenas é retratado dessa forma, afinal possui vários e vários séculos, é um ser milenar. É esculpido e pintado assim em deferência a Zeus, o pai de todos. Além disso, dentre tantos filhos se identificou com esse por ser o mais vistoso, o que mais brilha e por uma coincidência da vida, ou providência, foi batizado com o mesmo nome do olímpico deus.

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Na mesma gigantesca torre envidraçada, onde se encontra Apolo, está uma criatura nada deificada, porém que possui um extraordinário poder, o de não ser vista. Não consegue recordar quando adquiriu tal poder, desde suas mais tenras lembranças sempre foi assim. Não se delicia com sua condição como faz Apolo, até porque não sente que tenha sido uma conquista sua ou uma dádiva, mas uma imposição da vida. É um fardo, uma sina. Gostaria de ser vista, percebida, não muito, pois não está acostumada com isso, apenas um pouco para saber como é.

Transita pelos gigantescos cômodos da enorme torre, faz o seu serviço e vai-se. É uma fantasma, uma fantasma enfraquecida. Só possui um único poder do qual não tem controle, o de não ser notada. Uma fantasma que nem sequer consegue atravessar paredes quanto mais voar.

No entanto, quando algo some, quando há suspeitas quanto a isso, se lembram dela, dos iguais a ela, e é chamada para dar explicações. Só em situações singulares assim é que os invisíveis se materializam, que os transparentes tornam-se opacos, e como sempre, contra sua vontade. Estranhamente tem fornecer um álibi, nesses casos não vale a máxima de que a quem acusa cabe o ônus da prova. A nossa dalit é quem tem que comprovar sua inocência. Por sorte, sempre teve um álibi. Não reclama, acostumou-se, sempre foi assim desde antes do general. Por ironia da vida, ou escárnio, nossa invisível chama-se Aparecida e por ser dalit tem por sobrenome Poviléu.

Caminhante

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