O deus e a fantasma (Cap.2)

Vista_Parcial_de_Santiago_de_Chile_2013

É preciso uma esplendida torre como esta para ter um razoável distanciamento do que vai lá em baixo, na sociedade, uma distância panorâmica para compreender o quadro geral. Sou uma harpia enxergando das alturas as vastidões, meu olhar telescópico vê tudo, vê o futuro. Ao contrário dessas galinhas ciscadoras que foram feitas para bicar o que lhes é atirado ao chão. Esta é sua compleição, curvar-se para pegar o que lhes foi atirado. Em geral são ordeiras e comportadas, se atêm às suas limitações. Contudo, algumas são teimosas e insanas, creem enxergar longe no horizonte e capazes de atingir grandes alturas. No entanto, percebem apenas as migalhas no chão, quando estão no chão, e quando tentam ascender o que surge é um voo estabanado. Patético e cômico.

Sou uma ave que paira aonde nenhuma vai. Que consegue respirar o rarefeito ar e desse ambiente, inatingível para aleijadas aves, aprecio os dois infinitos se abraçarem em um abraço insano. Quem rasteja pelo solo não consegue acompanhar o que se passa na rara atmosfera e é assim que agarro as esplendidas oportunidades que nem sequer são intuídas pelos rastejantes. Um cometa, um raio em céu azul e minhas garras cravam-se em meu alvo. As cacarejantes não percebem a ciência, o cálculo e o instinto por traz de meus movimentos. Para elas é um macabro arrebatamento, uma sinistra abdução. Ora, ora, cisquem, cisquem. Não perguntem sobre o que não entendem, atenham-se às suas limitações. Para que almejar entender o mundo em que vocês nem sequer podem respirar. Curvem-se e biquem outro grão de milho.

Ah, o Andes. Essa magnífica obra nos separa dessa bandalha. Conforta-me admirá-lo daqui, encarar olho no olho o dique que mantem toda a barbárie do lado de lá. Nosso são Pedro.  O número de Apolos nesta estreita faixa de terra exprimida entre a gigantesca muralha e o revolto oceano é o mesmo da Alemanha. Prova maior que somos o Olimpo dessas plagas. O bastião da civilidade e da razão nessa continente sem luz.

Hoje estou filosófico, sinto-me em uma ágora com meus pares. Minha imagem refletida em meu espelhado bunker, gerando vários Apolos, é minha plateia.

Como, meu caro Apolo? Ah, sim. Somos exilados, com certeza. Minha tese é que nos ocorreu algo semelhante com o que se passou com a Índia, se deslocou da África e foi bater lá na Ásia. Sem dúvida foi isso que aconteceu com esta terra. A diferença é que para a Índia essa separação foi um ganho, jamais seria um dos berços da civilização se continuasse no continente onde nada prospera. Já nós… deslocamo-nos do norte e chocamo-nos com a outra massa de terra. Um fardo, os movimentos geológicos nos atiraram à barbárie, graças ao Pai temos o Andes. Enfim, somos desterrados, sem sombra de dúvidas. Contudo, há os céticos, os que duvidam, eu não. O Garcia achou uma ótima metáfora.

– Espiritualmente, sem dúvida. Somos do norte. Lá é o nosso lugar – falou.

Não é apenas uma metáfora. Obviamente que nossa alma não é daqui. Somos a razão em meio à animalidade. Somos um arranha-céu inteligente em meio ao paleolítico.

Apolo

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