Empoderada (conto completo)

Emponderada

– Eu, hein, dona Antônia vive no mundo da lua. Só pode. Imagina se não vou pegar o vagão rosa. Fico o dia todo faxinando, tirando o pó dos livros dela e do doutor Gustavo e preparando comida. Depois quase duas horas para voltar para casa, um trecho de metrô e o resto de ônibus. Chegando em casa tenho que dar comida para as crianças e ainda ficar espreitando para ver se o Clair não está pelas redondezas, traste de homem. Também tenho que manter minha casa um brinco, afinal doméstica que se preze tem que ter tudo limpo e organizado. Também tenho que dar exemplo pros pequenos, para não se desencaminharem. Mania chata que patrão tem em tratar a gente como se fosse criança. Às vezes dá vontade de dizer, “Claro, dona Antônia, faço tudo isso que a senhora diz para fazer, é só eu ter uma pessoa para cuidar da minha casa e dos meus filhos como a senhora tem. Ah, e tempo para ler e ir nos lugares que a senhora vai. Sem contar no dinheiro”. Mas, aí, você vira a grossa, a ingrata que não sabe ouvir um conselho. Como esse ônibus sacoleja, parece até que foi feito para levar batatas e não gente. Diz que temos que resistir, que também pega metrô e não entra no vagão rosa, pois temos que lutar por igualdade e não por um espaçozinho. Hum, acha que engana quem. Dona Antônia não faz isso por necessidade, brinca de pegar metrô, meio como quem vai à praia, para ela é lazer, para ela não é rotina.  Se eu tiver a chance de ter sossego vou aproveitar.

– Depois, esse seu lutar é sua profissão dona Antônia, não a minha. A minha é deixar tudo arrumadinho para a senhora ir lutar como o escudeiro da idade média que ouvi o doutor Gustavo dizendo ao Gabrielzinho o que é. Pelo que eu entendi, o escudeiro é quem carrega todos os trecos e todos os cacarecos do cavaleiro, até do cavalo cuida, assim o cavaleiro pode pensar só na guerra, só na resistência. Agora, a senhora quer que eu também lute como se fosse a senhora. Francamente, né! Eu sou o burro de carga para o cavaleiro, para a senhora ir lá fazer e acontecer.

– Vixe, parou o ônibus – um passageiro.

– É tiro gente, se abaixem! – o motorista.

– Valha-me Deus! – Lia.

– Para fora! Todo mundo para trás do ônibus! – o motorista.

Meia hora depois…

– É, gente, acho que apaziguou. Vamos voltar – o motorista.

– Vou ligar avisando do atraso. Oi, dona Antônia. Hoje vou atrasar teve tiroteio no meio do caminho, mas já acabou. O quê? Se estou traumatizada? Não. Se fosse me traumatizar cada vez que escuto tiro já tinha ficado doida. Isso a gente guarda para quando acontecer o pior. E Deus queira que nunca acontece.

– Pronto, aviso dado. Estamos no mesmo barco é o que dona Antônia sempre diz. Sei.  Estamos no mesmo barco? Que mesmo barco? A senhora está num transatlântico e eu estou no máximo na barca Rio-Niterói. Desde quando dá para comparar o doutor Gustavo com o traste do Clair. O doutor está aí, põe dinheiro em casa, viu o Gabrielzinho crescer e tudo. E opressão onde? É um molengão, com todo respeito, mas o doutor Gustavo é um sem voz, nunca vi apitar nada na casa, seja na criação do Gabrielzinho ou para os lugares onde vão viajar. Dona Antônia decide tudo.

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– Uma vez, irritada, me mostrou uma foto, acho que era de São Paulo. Era de um prédio residencial todo chique, tinha até piscina na sacada, um luxo. Bem do lado, dividindo o muro tinha um favela. Me chamou para ver a imagem, parei de tirar o pó e fui ver o que era. Então me mostrou a imagem, disse que usou em uma palestra que foi dar em uma faculdade sei lá onde. Ficou surpresa por eu não ficar surpresa. Vai entender. Os ricos do Rio adoram falar mal dos ricos de São Paulo, hum, como se não fizessem a mesma coisa. Só muda o sotaque, sei bem, já faxinei por lá também. Uma vez ouvi que era inveja. Eu não sei se os ricos daqui são tão ricos quanto os de lá, o que sei é que os pobres daqui são tão pobres quanto os de lá.

– Daí, eu falei, falei mesmo. Eu, hein, dona Antônia, qual a novidade? É só a senhora olhar pela janela desse apartamentão que vai ver a favela, tá logo ali, nunca percebeu não. De um lado tá o mar e do outro estão os barracos. É quase igual a essa foto aí, só falta é a piscina na sacada, mas o resto é cuspido e escarrado. Igualzinho, igualzinho.

– Acredita que ficou surpresa? Acha que me deu razão? Deu nada, desconversou. Um apartamentão daquele. Em cada cômodo cabe um barraco. Aliás, quantas barcas cabem em um transatlântico?

– Até que fim cheguei.

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– Olha só que quadro mais horroroso. Tem um monte de coisa esquisita dessas pela casa. E eles adoram esse troço, chamam de arte contemporânea e que ninguém entende nada, nem eles. E daí que tem conceito e sei lá o que, continua sendo horroroso, uma droga, não queria nem de graça.

– Semana passada dona Antônia tava com umas amigas gringas pela casa… Me senti uma macaca de circo, não disse nada para não magoar. Mas não gostei não. Elas não quiseram ofender, eu sei. Mas não gostei. Ficaram falando do povo e todas olhavam para mim, era como se o povo fosse eu. Ficaram lá tirando suas conclusões esquisitas sem me perguntarem. Se tão falado de mim tinham que me chamar para a conversa ou pelo menos não falar de mim na minha frente. Falta de educação. Todo mundo sabe que fofoca é pelas costas.

– Mas, aí, teve uma das gringas. Essa não era gringa, só não era do estado. Uma toda plastificada. Aquela mulher tá começando a me dar medo. Repuxada demais. Já disse isso para dona Antônia, tem que dar um conselho para essa doida aí. Tá querendo ficar jovenzinha, mas só tá parecendo um saco esticado. A mulher tá ficando sem expressão dona Antônia, qualquer dia a cara dela racha e cai no chão. Disse mesmo, ué. Então, a repuxada falou do funk, de como é lindo, que é o momento de congregação da comunidade. Ah, ricos adoram chamar favela de comunidade, eles acham que ofende, porém o que ofende eles acham que não. Então, falou de como os bailes funks uniam as pessoas da comunidade. Daí virou para mim perguntando se não era bem assim, pois para ela era, disse que foi em muitos. Meus Deus, esse monte de cirurgia afetou a mente da criatura. Repuxou o juízo todinho. Essa senhora num baile funk! Já passou da idade e faz tempo. Claro que eu não disse isso, né. Mas, falei do baile na favela onde moro. Disse que a favela não é casa noturna, nem praia e nem parque de diversões para quem tem que levantar cedo e ir trabalhar.  O baile funk, quando tem, vai até às cinco horas da madrugada, e é as cinco que eu acordo para trabalhar, junto com todo mundo que trabalha fora da favela. É uma briga até para conseguir dormir dentro da própria casa. Dá vontade de ligar para a polícia para dar fim naquele furdunço.  Mas eu ligo? Não, claro que não. Já imaginou se os traficantes, que são os donos da festa, descobrem que fui eu que liguei. Mas a polícia vem com frequência, às vezes trocam tiros, às vezes não. Mas quase sempre tudo termina antes das cinco quando a polícia vem, assim tenho um tempinho para o meu sono. É isso que é o baile funk para mim. Ficaram em silêncio, meio que surpresas. A repuxada eu não sei, pois não importa o que acontece está sempre com a mesma cara.

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– Traficante do bem. Vê se pode. Dona Antônia não disse bem assim, mas o sentido daquele palavrório esquisito era esse. Perguntou se não era melhor ter um de nós no poder. Que bestagem, hein, dona Antônia. Preto por preto os policiais também são. Disse, disse mesmo. E ainda fala como se a gente pudesse escolher, como se tivesse uma eleição para isso. Esse mundão de livros pela casa e não sabe o que se passa logo ali.

– Todo mundo dá palpite. Todo mundo dá conselho. Todo mundo quer cuidar da gente. A gente sabe se cuidar muito bem. O que atrapalha é esse povo que quer ajudar. Traficante quer ajudar, miliciano quer ajudar. Aonde eles chegam o gás fica mais caro, a lotação fica mais cara, a net fica mais cara. Como se pobre tivesse dinheiro sobrando. Vão perguntar pro Dilson do mercadinho que se apertou e não conseguiu pagar toda a mensalidade, foi surrado na frente de todo mundo. Se fosse para escolher a gente escolhia é ninguém. Cada um que aparece para ajudar é mais um peso para a gente carregar. Essa caridade custa caro, tem necessidade não.

– Daí ela falou para nós nos reunirmos, fazermos assembleia e não sei mais o que. É claro que não dona Antônia, quem é doido de criticar quem tem um fuzil na mão. A senhora pode fazer isso porque sabe que não vai dar nada. Na favela pode acontecer de um tudo. Somos vira-latas de rua, por experiência sempre desconfiados. Sempre prontos a nos esconder e sair correndo para não ser maltratado, para não ser judiado. Não somos esses luluzinhos criados a pão de ló em um bom condomínio da zona sul ou da Tijuca que late para todo mundo com raiva e as pessoas acham graça e até recuam quando o cãozinho fica muito feroz, dão razão ao cãozinho, tiram foto, filmam e colocam tudo no instagram. Cachorro de rua se ladrar leva paulada, pedrada e ninguém fica nem sabendo.

– Às vezes parece que eu moro em outro planeta, que eu e dona Antônia não vivemos no mesmo mundo. Quando entro nesse condomínio é outro mundo. Até pelas coisas que falam aqui. Dona Antônia com essa ideia de confraternizar ou se unir com bandido. Eu nunca entendi do que ela dá aula. Uma vez apareceu por aqui uma aluna dela, avoada, avoada. Linda, mas mais avoada que as nuvens. Falou em distribuição social, em uma tal de lógica capitalista. Por isso é justo o roubo, pois roubam dos ricos para adquirirem o que não tem.

– Eu, hein, menina, vocês da faculdade esqueceram de avisar isso para os ladrões. Mês passado fizeram um arrastão no ponto de ônibus, limparam todo mundo. Não tinha rico ali não. Eu só não perdi o meu celular porque sempre levo o celular do ladrão. Isso mesmo, celular do ladrão, a gente leva sempre um celular antigo ou que não funciona para quando o ladrão vier ter o que dar. Perdi o cartão do passe, deu um trabalho danado fazer outro. Ah, no começo do ano o Jeferson, filho da Dina, que faxina aqui no 802, a gente mora tudo na mesma favela… o que eu ia dizer mesmo? Ah, sim. Disse assim para a avoadinha, acredita que roubaram a moto dele, o menino é moto boy, usa para trabalhar e ainda tá pagando a moto. Os ladrões tinham que ir nessa faculdade, aí, hein, menina. Debochei, ah, debochei mesmo.

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– Outra coisa de outro mundo é esse gosto do seu Gustavo por coisas antigas da Europa.  Pelo que entendi trabalha com isso. Um dia seu Gustavo me perguntou o que eu achava. Eu disse que achava muito trabalho, imagina o trabalhão que deve dá para ariar essas armaduras todas, coitado do escudeiro. Imagina quando a criatura, o tal cavaleiro, vai para guerra, quando volta o escudeiro tem que desamassar tudinho. Seu Gustavo riu do que eu disse. Mas é verdade.

– Vixi, mensagem. É daquele francês doido, amigo da dona Antônia e do seu Gustavo. Disse para mim que achava lindo a esperança que percebia nas lajes dos barracos, via como uma crença em um futuro melhor. Não deixa de ser. Falou que gostava da nossa simplicidade, pobreza, agora, é simplicidade. Dona Antônia ficou toda preocupada. Disse que ia conversar com ele, para ele parar com essas coisas, pois, depois ele voltava para França e eu ficava aqui iludida. Mas por isso mesmo, dona Antônia, falei. Ele logo, logo vai se embora e não vai dar incômodo. Foi engraçado, parecia que eu era uma menininha. O problema é que esse francês foi embora, mas fica mandando mensagem. Fica dizendo que vai voltar e que quer me levar para conhecer a Europa. Cada um tá muito bem onde está, isso não precisa mudar não, respondo. E adianta? Adianta nada. Parece que não entende, sujeito doido.

– Opa, já deu minha hora. Ir para casa e se eu encontrar o Clair rondando a minha casa de novo não respondo por mim. Coloco na Maria da Penha. Para pagar pensão nada, para comprar alguma coisa para os filhos nada, para ser exemplo pros filhos nada. Mas para ficar querendo me controlar o traste tem tempo.

– Sim, vagão rosa, sim dona Antônia. Lutar eu já luto vinte e quatro horas por dia. Já não sou mais nova, mesmo assim sempre tem um abusado, esse instantinho de sossego não abro mão. Outra ideia esquisita que dona Antônia tem é sobre empregados, falava sobre uma amiga que faz tudo sozinha, que era exemplo. Eu conheço a amiga por isso retruquei. Ora, mas ela tem empregas, mais de uma, como assim faz tudo sozinha? E desde quando quem tem empregado não vai usar. Eu, hein. Então dona Antônia me perguntou se eu tivesse empregada eu usaria. Vixi, é claro, respondi. Para que alguém tem empregada? Daí ela disse que quando a educação não é libertadora o desejo do oprimido é se tornar opressor, disse que é de um tal de Frei ou Farias, algo assim.  Pelo o que eu entendi, eu sou a oprimida? Dona Antônia disse que sim. A senhora se acha opressora. Não sabia. Como assim? Ué, a senhora tem emprega. Que por acaso sou euzinha aqui. Não é bem assim, disse dona Antônia, e deu um monte de voltas. Aí eu cutuquei, belisquei mesmo. Ah, entendi. É opressão quando os pobres querem vida boa e conforto. Quando pobre quer ter a vida do patrão e não quando o patrão tem a vida que tem. Ela disse que eu não entendi. Vixi, nem eu e nem a senhora pelo jeito. Diz uma coisa e faz outra.

– Dona Antônia é engraçada. Diz para todo mundo que eu não sou sua empregada, diz que eu sou sua secretária, pois assim eu me sinto melhor, como é que ela diz? Que assim fica uma relação mais horizontal e que eu não me sinto submissa. Dona Antônia vive no mundo da lua, nunca me perguntou nada. De onde ela tira essas ideias? Nem a sapeca da minha Marta inventa tanta coisa.

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– Vixi, meu ex-patrão foi eleito de novo. Nada de novo. Isso é mais certo que a morte. Só se fala dessas eleições agora na TV, na nova política. Nova? Mas seu Euclides foi eleito de novo e pelo que eu entendi vai ocupar alguma coisa no governo. Quando trabalhei para ele, pra mais de quinze anos, ele já era político velho. Filho de político, acho que neto de político também. Como é que chamavam a família do seu Euclides? Ah, sim, dinastia, isso, dinastia dos Euclides. Seu Euclides é Euclides neto, o seu pai é o Euclides Filho e o avó é só Euclides. Dias desses o meu Jorge me mostrou no celular dele um desenho engraçado, ri muito. Era seu Euclides vestido de travesti, num vestidão todo grandão com mais rendas e firulas que as fantasias das alas das baianas das escolas de samba, tinha uma perucona gigante, tava com batom, pó de arroz e ruge. Imagina, seu Euclides de batom e ruge! E seu Euclides dizia “se não tem pão, comam brioches”. Dizia isso para um amontoado de gente de cara série e irritada que parecia estar protestando ou em greve.

– Muito engraçado. Só não entendi o motivo de seu Euclides tá fantasiado de travesti. Não é época de carnaval e mesmo que fosse nunca pensei que seu Euclides se vestiria assim.

– Aí, então, o Jorge deixou de rir do desenho para rir de mim. Não, mãe. O seu Euclides está vestido de Maria Antonieta, rainha da França. Oxe, a rainha da França é travesti. Não sabia. Não, mãe. A França não tem mais rainha, cortaram a cabeça dela. Vixi, essa França até parece ser aqui. Fizeram isso por ela ser travesti? Não, mãe. A senhora não está entendendo, disse. A rainha da França não era travesti, o povo era muito explorado pelos nobres, aí veio a Revolução Francesa e povo matou muitos nobres, inclusive o rei e a rainha.

– E o que isso tem com seu Euclides? Perguntei. A pobreza, mãe, disse o meu Jorge. Tá todo mundo quebrado, muita gente sem receber o seu salário por culpa de políticos como esse ladrão do Euclides. Por isso a analogia, ele é a nossa Maria Antonieta. Então, eu ri, ri muito. Quanta volta para dizer que seu Euclides tinha roubando tanto do povo que deixou todo mundo na miséria. Mas o que tem o pão e o brioche? Brioche é até mais caro, perguntei. Jorge tentou explicar, mas essa parte não consegui acompanhar.

– Que seu Euclides fazia das suas eu já sabia, foi por isso que deixei de trabalhar para ele. Tava lá eu faxinando a mansão dele, junto com a Maria, a Neuza e a Kátia, mansão mesmo, castelo de rei. Quatro faxineiras todo dia para deixar aquele mundão em ordem. Tava a gente fazendo nosso serviço aí chega a polícia fazendo o maior alvoroço. Vixe, pegaram seu Euclides, disse a Neuza. Pegaram foi nada, reviraram umas gavetas, uns armários e depois vieram para mim e para a Kátia. Disseram que iam nos levar para prestar esclarecimento.

– Olha, moço, a gente não sabe de nada, não tem informação nenhuma não. A gente não sabe no que seu Euclides está metido, falei. O homem disse que íamos mesmo assim, mostrou papel do juiz para nós. Ou seja, não era questão de escolher. Era ir ou ir.

A gente não entendeu nada. Também levaram o Raimundo, o jardineiro da mansão. Pensei que iam algemar todo mundo, que a gente ia no camburão igual bandido. Não teve nada disso, a gente foi no banco de trás. Aquele carrão preto e a gente no banco de trás, igual madame indo fazer compras, parecia. Banco macio, macio. Ar-condicionado do bom. Uma maravilha. Mas uma coisa não saía da minha cabeça, o que essa polícia rica quer com a gente?

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– Então, o delegado me chamou e perguntou de onde vinham meus proventos. Que raio é isso, perguntei. O doutor delegado repetiu a pergunta, só mudou a palavra. Perguntou de onde vinha minha renda. Disse que do meu trabalho na casa do seu Euclides. Então, fui informada que meu salário não vinha do seu Euclides, vinha da verba de gabinete dele. Não entendi o que queriam dizer, então, me explicaram. Falaram que no papel eu trabalhava para o seu Euclides, até aí tudo bem, o problema é que no papel eu trabalha para o doutor Euclides no gabinete dele, lá em Brasília, onde nunca estive. Aí é que a coisa ficou feia, para o meu lado é claro. O delegado disse que eu era uma funcionária fantasma, que eu acabara de confirmar que nunca estivera em Brasília. E o quê que tem isso? Perguntei, já desconfiada que ia sobrar para a burra aqui.

– Então me avisaram que eu nunca tinha trabalhado no gabinete do seu Euclides, no entanto recebia como se trabalhasse, assim o meu ordenado não era pago pelo seu Euclides, e sim pelo povo. Por isso, eu teria que devolver todo o dinheiro, pois era funcionária fantasma. Aí fiquei apavorada e irritada. Disse que nunca trabalhei em Brasília, mas durante esses dois anos trabalhei foi é muito. Disse que ele tinha que ver isso com o seu Euclides, pois, eu não tinha nada com isso, não sabia de nada e que eu trabalhei durante esses dois anos direitinho, sem faltar um dia. Por isso essa história de funcionário fantasma não tem cabimento. Depois, disse que eu não tinha o dinheiro para devolver. Ora, era só o que falta trabalhar de graça. Funcionária fantasma onde, eu tava bem viva, todo santo dia faxinando aquela casa.

– Perguntaram com um tom desconfiado como era possível eu nunca ter desconfiado de nada? Eu, hein como eu ia saber, dinheiro do governo tem cor e cheiro diferente do dinheiro do doutor Euclides, disse. E completei, completei mesmo. E vocês que são dessa polícia importante levaram esse tempo todo para saber como eu ia saber? Não é nossa função, disseram. Mas se não é função de vocês por que estão bulindo com isso? O delegado ficou brabo. Patrão odeia ser questionado pela gente.

– Então me perguntaram se eu tinha reparado em algo estranho na casa do seu Euclides. Tudo lá é estranho para mim. Uma casa daquele tamanho, com um monte de quartos e salas decorados com luxo e que quase nunca ninguém usa. Um monte de comida que quase ninguém come. A casa tinha até sauna. Para que gastar uma fortuna para construir um quarto quente para ficar suando aqui no Rio de Janeiro. Se a intenção é esse é só pegar ônibus na hora da muvuca.

– Me liberaram e eu voltei para a casa do seu Euclides junto com a Kátia que tava apavorada. Eu achei que ela fosse ter um troço. O problema da Kátia não era como o meu, a artimanha do se Euclides com ela foi bem pior. A Kátia foi informada pela polícia que ela possuía várias casas, mansões, aliás. Uma em Angra, uma em Florianópolis e um na Costa do Sauípe. Perguntaram como ela podia ter esses três imóveis sendo que era uma faxineira. A Kátia disse que não sabia de nada e que morava no Vidigal e que podiam ir lá perguntar e que nunca esteve nem Angra, nem em Florianópolis e nem na Bahia. Disseram que ela era laranja, que estava ajudando seu Euclides a lavar dinheiro roubado e queriam saber qual a vantagem que ela tinha recebido. A Kátia chorou muito, disse que não tinha feito aquilo, que não tinha vantagem nenhuma, não sabia de casa nenhuma.

– Coitada da Kátia. Quando voltamos ela já estava melhor. E teve uma esperança besta. Me perguntou se será que ela podia ficar com uma das casas, a menorzinha que fosse. Pelo preço que o delegado disse que valia a Kátia achava que dava para comprar uma casa com quintal e tudo para ele, pagar uma boa escola para os filhos até eles crescerem, comprar um sítio pro seu pai que era meeiro no interior do estado, achava até que dava para se aposentar ou abrir uma coisinha sua. Vê se pode!

– Deixa de ser tola, Kátia, é claro que não. Essas casas são do seu Euclides e vão continuar sendo. E pode esquecendo essa história de aposentadoria, pobre só se aposenta quando morre e olhe lá.

– O mais prejudicado por seu Euclides foi o coitado do Raimundo. Que só depois fiquei sabendo o motivo de não ter voltado com a gente, não foi liberado. Ele também era funcionário fantasma sem ser como eu. Pelo papel devia estar em Brasília, mas estava na casa do Rio. Para piorar tinha uma dúzia de fazendas em seu nome. De gado, de soja e de cana. Umas ficavam no nordeste, outras perto de Brasília e outras no interior de São Paulo. O coitado do Raimundo disse que a única terra que tinha era um sítio seco no interior de Pernambuco, onde estava sua família, e que mandava quase todo o seu salário para lá. Quando deram a entender para o Raimundo que achavam que ele sabia que era laranja de seu Euclides e que tinha levado vantagem e que por ser funcionário fantasma teria que devolver os salários de três anos, Raimundo esqueceu onde tava e disse que não era bandido, que não tinha levado vantagem nenhuma, que não era homem disso, que não era porque era pobre que ia deixar gente que se acha importante fazer pouco caso dele. E que não ia devolver dinheiro nenhum, pois não ficou a toa sem fazer nada e recebendo ordenado, fez todo o jardim do seu Euclides e cuidou dele como se fosse seu. E que deixassem de frouxura e fossem peitar quem tinha cometido crime, ou seja, o seu Euclides.

– Por causa da resposta Raimundo ficou preso por dois dias por desacato, seu Euclides não ficou nenhum. Fiquei com orgulho do Raimundo e com vergonha por não ter tido uma reação parecida. Até hoje acho que devia ter dito alguma coisa, ter feito como o Raimundo fez. Esse negócio de sempre engolir desaforo mata.

– Depois, o advogado falou que aquilo era para intimidar, para ver se a gente sabia de algo. Não aceitei a explicação não. Foi bem cruel, ficar de ameaça com quem não tem nada e não fez nada. Não consegui ver muita diferença entre eles e seu Euclides.

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– Então, no dia seguinte a dona Ângela, mulher do seu Euclides, tocou a sineta. Tinha uma bronca danada daquela sineta, nunca chamava a gente, só usava a tal da sineta. A criatura não tem boca não? Essa mania de sempre economizar língua. E a gente por acaso é gado para ser chamado desse jeito. A dona Ângela tava muito simpática, sorrindo e tudo. Aí, eu pensei, aí tem, ô se tem. E tinha mesmo. Falou comprido, conversa cheia de nove horas, disse que não era para não nos preocuparmos, que tudo ia se ajeitar e mais um monte de coisa. Quando ela disse se a gente precisasse de qualquer coisa era só falar com ela fiquei mais desconfiada ainda. Esse amor todo sei não, usa a gente depois vem com esse carinho todo como se não tivesse feito nada. Atalhei a conversa fiada e disse que queria minhas contas, pois não ia mais trabalhar na casa.

– Dona Ângela, se fez de boba, fingiu que não tinha ouvido e falou em nos dar um aumento. Mas não deixei passar, repontei. Disse que não trabalhava mais para ela e o seu Euclides. Dona Ângela não teve como fugir do assunto. Se fez de sentida, parecia que a criminosa era eu. Fez uma penca de elogios, disse que ia sentir saudade e tudo. Mas percebeu que não estava funcionando e apelou, apelou mesmo. Disse que era ingratidão que me via como filha. Aí, não aguentei e ri muito, gargalhei, quase cai no chão de tantas gargalhadas, me tremia toda.

– Dona Ângela não viu graça nenhuma, apontou para mim a sineta como se fosse uma arma e começou a me ofender. Disse que não podia esperar outra coisa de gente como eu, que gente como eu quando desiste de trabalhar é porque arranjou lugar no crime. Eu queria dizer que eu não ia deixar de trabalhar e que não tinha crime nenhum, queria falar que estava pensando em outro emprego. Mas não disse. Interrompi dona Ângela de outra forma, com um tapa. Dei na cara dela, sim. Todo mundo ficou espantado, principalmente dona Ângela. Eu não fiquei, já tava fora de mim. Dona Ângela parecia um estátua, parada com aquela sineta apontada para mim. Arranquei aquela sineta da mão dela e fui me embora.

– Pensei que seria presa, que dona Ângela fosse me denunciar. Não fizeram nada. Acertaram as minhas contas direitinho. Dona Ângela e seu Euclides queriam evitar escândalo, ficaram com medo da repercussão. Não sei o que me deu naquele dia, imagina, dar na cara de patrão. Fiquei muito satisfeita com que eu fiz, fiquei mesmo. Não sei de onde tirei tanto alívio. Parecia que eu não tinha feito aquilo só por mim, mas por muito mais gente. Se eu pudesse colocava a minha mão em uma moldura, mas preciso das duas para faxinar. E pegar a sineta, então. Não sei o motivo de ter roubado a sineta, mas eu guardo até hoje, é um troféu, sinto.

– Pronto, entrar no condomínio e começar mais um dia de trabalho.

– Como assim, Paulo? Sério isso? Roubaram o apartamento da dona Antônia. Quando foi isso? Levaram muita coisa? Deixa, precisa falar nada não, vou lá falar com a dona Antônia.

– Gente, que absurdo. Um condomínio desses, cheio de câmeras e segurança, como pode?

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– Não esperava isso de dona Antônia, não esperava mesmo. Aquele monte de voltas para perguntar se eu sabia alguma coisa do roubo. Demorou para eu atinar para a coisa. Só disse: o que a senhora quer dizer com isso? Aí, dona Antônia falou que não era para entender mal, pois quem sabe eu podia ter comentado alguma coisa sobre os objetos da casa ou sobre a rotina. Ora, veja! Claro que entendi. Entendi muito bem, como entendi, só entendi. Aconteceu um crime e foi logo procurando pelo preto mais próximo, que no caso sou eu. Era isso que eu devia ter dito. Não disse. Mas devia. Quem sabe foi melhor assim. Nem sei mais. Quinze anos trabalhando para eles e olha isso!

– Não trabalho mais lá não. Desaforo a gente não deve aceitar não, nunca. Mas esse foi diferente. Fiquei indignada, mas não foi só isso. Não foi como daquela vez com seu Euclides, não foi como das outras vezes. Fiquei magoada. Doeu de um jeito diferente, mais fundo. Acho que era pela amizade ou pelo o que eu achava que era. O triste de tudo isso é não ver mais o Gabrielzinho, cheguei na casa de dona Antônia quando ele era um tico de gente. Hoje tá um rapagão, é um menino ainda, de homem só tem o tamanho, você tem que ver. Para o ano que vem termina a escola e vai fazer vestibular. Não vou tá lá para ver quando ele passar. Fazer o quê, é a vida.

– A primeira pessoa para quem contei foi o Mariano, o zelador, ele olhou com pena para mim. Fiquei aliviada por perceber que ele não desconfiava de mim. Ele me disse que olhou e reolhou as câmeras do condomínio e nada de estranho aconteceu, ninguém diferente apareceu. Aí, emendou, afirmou que isso significava que só uma pessoa podia ter roubado as joias e o dinheiro. Então, expôs que ia ver de que jeito ia tocar no assunto com dona Antônia e seu Gustavo e que não era para eu me preocupar. Atalhei e disse para ele parar de intriga e que não tava pedindo ajuda para ninguém. Que não era para ele levar coisa para casa da dona Antônia, já bastava o roubo. Mariano de inicio ficou surpreso, mas entendeu. Disse que se eu preferia assim tudo bem, falou que achava bonito meu gesto, ainda mais com quem não merecia. Não gostei dessa última parte, o de quem não merecia.

– O quê? Tira a cara desse celular e me responde direito Jorge! Quê? Gabrielzinho tá aqui? Diz para ele entrar, esperar na sala. Só vou terminar de estender as roupas e vou lá. O que será que aconteceu?

– Oi, menino. Que veio fazer aqui Gabrielzinho? Como conseguiu chegar até? De uber, ah, tá. Sim, eu sei que foi você. Não precisa me pedir desculpa não. Você não mexeu nas minhas coisas, mexeu nas dos seus pais e isso não é certo. É para eles que você precisa pedir desculpa. Quê? Ah, você acha que por sua causa dona Antônia e seu Gustavo desconfiaram de mim. Bestagem, não foi por isso não. É complicado explicar. Tudo bem menino, eu sei muito bem que você não queria me fazer mal, não estou magoada com você. E com seus pais? É, um pouco. Não, não vai dar para voltar a trabalhar com vocês não. Do que você está falando menino? Ninguém veio me pedir desculpa, só você e nem tinha necessidade. Nunca mais vi e nem falei com dona Antônia e seu Gustavo depois que pedi as contas.

– Coitadinho do Gabrielzinho, veio aqui achando que tudo seria resolvido. Mas dona Antônia e seu Gustavo não deviam ter mentido para ele dizendo que iam vir se desculpar comigo depois que ele confessou que foi o responsável pelo roubo, ele mais uns amigos. Aqueles dois que o meu santo nunca bateu, sempre soube que não eram boa coisa. Eu até ia mentir para o menino se soubesse da mentira, ia dizer para o Gabrielzinho que dona Antônia e seu Gustavo vieram aqui e que estava tudo bem entre nós, mas fui pega desprevenida, não tinha como remediar, não tinha emenda que desse jeito. Esse samba já tava atravessado mesmo, não tinha o que fazer.

 

Lia

FIM

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