O deus e a fantasma (cap.3)

santiago-favela

Sina de pelejar e de sofrer, o que há de se fazer? A ordem do mundo é essa. Deus e sabe-se lá mais quem quis assim. Se ao menos já tivesse renda de aposentadoria ajudava. Provação, provação. Não há remédio. Não há remédio para essa vida e nem para as dores. Elas zunem, latejam e latem. Cada manhã parlamento com elas, dialogo com a enxaqueca, aquieto as varizes e engano a artrite. Com diplomacia e rezas desarmo o piquete das chagas e dou fim à greve do corpo. É preciso ir e continuar. A carne não aguenta, os ossos se esfarelam, mas o mundo exige. É preciso ir e continuar.  Meu corpo quer tombar, mas sou da raça que nem sequer chão para tombar tem, cair não posso, é aguentar e aguentar, olhar bem o chão para não tombar, igual a galinha à cata de milho. Pois, se caio não levanto, mas não posso cair, não posso exercer esse direito por não ter meios para pagar.

Qual o motivo disso? Não é revolta. É estranheza. É não entendimento. Os deuses falam bonito, discursam comprido e transpiram certezas, mas ninguém entende. Parece as missas de antigamente feitas em latim, não era para compreender, era para crer. As minhas mãos colocaram pedras nos alicerces do mundo, mereço meu pão![1] Não é intriga nem conspiração, é cansaço, é falta de sentido, é desilusão.

Podia ser pior, pelo menos, agora, tem esses aparelhos que ajudam a fazer mais rápido. Antes era tudo na mão e no lombo.

Contudo, os brinquedos ajudam só com as dores menores e não com a dor. Essa que aperta o peito e que esmaga a alma.

– A alma está asfixiada, mas pelo menos o corpo ainda funciona.

Diz Maria, a boa Maria. Mas não somos só corpo. Não somos ligadas na tomada e nem funcionamos à bateria. O combustível é outro…

De onde vem essa dor? É velha, muito velha. Mais que antiga. Anterior às dores menores. Herdei de minha mãe que herdou da mãe dela e assim por diante. De novo, não é revolta, nem insurreição. Só queremos saber o motivo de nossa alma ser aleijada, demente e triste. A impressão é que praticou, presenciou e sofreu um crime. Algo muito grave aconteceu, tão grave que a memória se recusa a lembrar, no entanto, a alma não se cala e relata. Porém, não conseguimos interpretar. O que houve? O que a cordilheira tem a nos falar? O que testemunhou nos tempos idos?

Ela é a mais velha desse lugar, chegou antes de todos. É a única que pode tirar o véu que impede os olhos de ver, além de ser a única capaz de nos aconselhar. Devia ter tido essa ideia antes. Tudo tem seu tempo e agora é a hora. Vou falar com Maria e vamos juntar as crianças para ir à Cordilheira. A velha sábia há de nos iluminar.

Aparecida Poviléu

[1] Trecho do poema Confiança de Agostinho Neto

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