O deus e a fantasma (cap.4)

Vista_Parcial_de_Santiago_de_Chile_2013 - 2

Apolo está levemente aflito, não compreende o que se passa. Qual o motivo da balburdia, da arruaça? Logo, aqui, no Éden. Do nada e sem motivo algum as manifestações, os protestos tomaram as ruas de sua metrópole até então eficiente, pontual e ordeira. Não lembra mais um relógio suíço ou o sistema metroviário alemão. Assemelha-se a pontualidade das reuniões brasileiras, nem Deus sabe quando começam, e ao trânsito indiano, só falta aparecer um elefante abrindo caminho por meio de cabeçadas e chifradas. O que Apolo crê que possa acontecer a qualquer momento. Até a estátua do herói foi derrubada. O que pretendem erigir no lugar? Querem transformar o Panteão em terreiro. Converter o mármore do solo em chão batido e substituir os heróis por subjugados e vencidos.

De sua torre observa os bárbaros tomando a sua Roma. Um sentimento incomum o invade, a sensação de mortalidade. Apolo apaga-se, se obscurece, está prestes a entrar em desespero. Mas é salvo por um providencial epifania. Uma águia voa alto, ouve seu grito, apesar da espessura do vidro blindado de sua bastilha, e isso o surpreende. Mira a rapinadora, que está na linha do Sol, e escuta seu Deus.

Tomai o fardo do Homem Branco
Envia teus melhores filhos
Ide, condenai seus filhos ao exílio
Para servirem aos seus cativos;
Para esperar, com chicotes pesados
O povo agitado e selvagem
Vossos cativos, tristes povos,
Metade demônio, metade criança.

Tomai o fardo do Homem Branco
Continuai pacientemente
Ocultai a ameaça de terror
E vede o espetáculo do orgulho;
Pela fala suave e simples
Ao discurso direto e simples
Uma centena de vezes explicado
Para buscar o lucro de outrem
E obter o lucro de outrem.

Tomai o fardo do Homem Branco
As guerras selvagens pela paz
Enchei a boca dos Famintos,
E proclamai, das doenças, o cessar;
E quando seu objetivo estiver perto
(O fim que todos procuram)
Assisti a indolência e loucura pagã
Levando sua esperança ao chão.

Tomai o fardo do Homem Branco –
Sem a mão-de-ferro dos reis,
Mas, sim, servir e limpar –
A história dos comuns.
As portas que não devei entrar
As estradas que não devei passar
Ide, construí-as com as suas vidas
E marcai-as com os seus mortos.

Tomai o fardo do homem branco
E colhei vossa recompensa de sempre
A censura daqueles que  tornais melhor
O ódio daqueles que guardais
O grito dos reféns que vós ouvis
(Ah, devagar!) em direção à luz:
“Porque nos trouxeste da servidão
Nossa amada noite no Egito?”

Tomai o fardo do homem branco
Não tentais impedir
Não clameis alto pela Liberdade
Para ocultar sua fadiga
Por tudo que ocultai e confidenciai,
Por tudo que permitir ou fizer,
Os povos soturnos e calados
Medirão vosso Deus e vós.

Tomai o fardo do Homem Branco!
Acabaram-se vossos dias de criança
O louro leve e ofertado
O louvor fácil e glorioso
Vinde agora, procura sua virilidade
Através de todos os anos ingratos,
Frios, afiados com a sabedoria amada
O julgamento de sua nobreza[1].

E irradiou-se, voltou a resplandecer. Sim, mais uma vez terá de salvar o povo de si mesmo. Sina ingrata. Contudo, com grandes poderes vêm grandes responsabilidades.

Reuniu-se com seus pares, anunciou a boa nova, e luminosamente sentenciou e profetizou.

– Somos espartanos nas Termópilas cabe-nos honrar nosso Deus e salvar a civilização.

Caminhante

[1] Poema O fardo do homem branco de Rudyard Kipling.

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