O deus e a fantasma (cap.6)

Aparecida não ficou na manifestação, se dirigiu para a grande torre. Intuía que assim devia ser. Os inúmeros seguranças permitiram sua entrada e foi informada pela recepcionista que dom Apolo a aguardava para uma conferência.

Chegou à sala de reunião. Uma enorme mesa feita de madeira nobre ocupa o centro do recinto. Apolo está em uma das pontas e um dos tantos seguranças acompanha Aparecida até o assento na outra ponta, próxima à porta.

– A senhora está confortável? – Apolo.

– Ótimo. Saiba que eu não estou. Olhe o caos que esse país virou. E a troco de quê? Temos tudo nesse país!

– Não temos. Falta justiça e esperança.

Apolo se levanta e dá um soco na mesa.

– Não venha com delírios e mimimis. Eu tenho dados! A renda per capita anual do Chile é superior a vinte e cinco mil dólares, o índice de confiança do investimento do país é extraordinário e o desemprego é baixíssimo, praticamente pleno emprego. Dados mais que excelentes. Portanto, essa gente do nada e sem razão ficou respondona e mal criada. São uns mimados. Têm tudo. E digo mais…

– Também tenho dados, senhor Apolo.

A afirmação de Aparecida o surpreende. Fita a indígena anciã.

– A senhora tem dados?

– Exatamente.

– Adoraria ouvi-los – e sorri com alegre descrença. – Por obséquio, a senhora poderia me fazer a gentileza de apresenta-los?

– Será um prazer. Começo pelo primeiro item que o senhor apresentou. Sem dúvida a renda per capita é boa, no entanto, ela por si não basta para tirar maiores conclusões. O senhor esqueceu a concentração de renda e no Chile ela é poderosa. Um por cento da população tem trinta e três por cento da renda total e cinco por cento tem mais de cinquenta e um por cento dela.

– O que a senhora pretende com isso? – já sem o sorriso, só com a descrença.

– Serei mais didática. Se levarmos em conta a renda média das pessoas nesta sala, eu, o senhor e os dez seguranças aqui presentes, todos nós somos bilionários – Apolo e os seguranças sorriem. – Entretanto, todos nós sabemos que apenas o senhor é bilionário – agora, só Apolo sorri, mas para ao perceber que não é acompanhado pela segurança. – Quanto à baixa taxa de desemprego, a questão não é a falta, mas as condições. O custo de vida subiu muito e os salários não acompanharam, estamos vivendo a credito. Quando chega a idade de aposentador a situação piora, maioria se aposenta com menos de um salário mínimo. Sem contar que quase metade das mulheres com idade para se aposentar não conseguiu se aposentar. Esse é o meu caso.

 – Se a senhora não foi previdente que culpa tem o estado.

– Eu fui previdente, tanto que ainda estou viva, e a culpa do estado é a omissão. Falta o último dado que senhor apresentou. Não nos importamos com o alto índice de confiança se ele não se reverte em melhorias para nós, pior ainda se ele é fruto da degradação de nossas condições de vida. Essa ótima nota foi conquista pela eficiência com que o povo foi deixado ao léu.

Caminhante

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s